Beto Carrero foi um empresário, artista e showman brasileiro. Considerado um dos maiores empreendedores do entretenimento na história do Brasil. Idealizador e fundador do Beto Carrero World, o maior parque temático da América Latina, localizado no município de Penha, no litoral norte de Santa Catarina. Menino pobre do interior paulista que sonhava em ser um herói mascarado ao estilo do Zorro e que, com audácia, carisma e uma força de vontade inquebrantável, transformou esse desejo de infância num império do lazer reconhecido mundialmente. Transitou por diversas atividades ao longo da vida: foi cantor sertanejo, locutor de rádio, vendedor de anúncios, publicitário, agente de artistas, ator de cinema e televisão. Criou um personagem de caubói que encantou crianças e adultos e que se tornou um símbolo da cultura popular brasileira. Amante dos animais e defensor da natureza, levou essas bandeiras para dentro do seu parque. Construiu uma agência de publicidade que chegou a figurar entre as vinte maiores do país. Protagonizou filmes ao lado de ícones como Os Trapalhões e Xuxa. Sua trajetória é um exemplo notável de como a persistência e a capacidade de reinvenção podem superar qualquer limitação imposta pela origem social.Nasceu na cidade de São José do Rio Preto, no interior do estado de São Paulo. Seu nome completo era João Batista Sérgio Murad. Foi o penúltimo dos onze filhos do casal Alexandre Murad, um imigrante libanês que trabalhava na lavoura, e Florentina Candida de Jesus, natural de Minas Gerais.
A família era humilde e numerosa. Seu pai era conhecido na região como Alexandre Carrero, porque conduzia um carro de boi que servia para transportar pessoas e mercadorias. Justamente dessa figura paterna, seu grande herói da vida real, viria a inspiração para o nome artístico que o imortalizaria.
Desde pequeno, duas influências marcaram profundamente sua personalidade: o pai, com sua habilidade para lidar com cavalos e animais, e o personagem Zorro, que alimentou o imaginário do menino e despertou nele a vontade de se tornar um herói e de trabalhar num parque de diversões. Conta-se que chegou a ser repreendido pela mãe por rasgar as próprias roupas tentando imitar o figurino do famoso personagem mascarado.
Completou os estudos básicos e cursou Contabilidade, única formação disponível em sua cidade na época, porém jamais exerceu a profissão.
Tentou iniciar uma carreira como cantor sertanejo nas rádios de São José do Rio Preto, mas rapidamente percebeu que esse caminho não renderia os frutos que almejava. Aproveitando os contatos que já havia feito no meio radiofônico, conseguiu uma oportunidade como apresentador e passou a conduzir o Programa Beto Carrero, uma atração que misturava música sertaneja com humor. Nessa empreitada dividiu o microfone com Dino Santana, irmão do consagrado humorista Dedé Santana.
Foi nesse período que adotou pela primeira vez o nome artístico Beto Carrero, numa homenagem carinhosa ao pai.
Deixou o rádio e mudou-se para São Paulo em busca de melhores oportunidades. Conseguiu um emprego no jornal Folha de S.Paulo, onde atuou como corretor de anúncios publicitários. A experiência nesse veículo de comunicação funcionou como uma verdadeira escola de marketing e negócios. Aprendeu sobre o poder da publicidade e da comunicação, conhecimentos que aplicaria com maestria ao longo de toda a sua trajetória profissional.
Com o dinheiro que conseguiu poupar, reuniu-se com alguns sócios e fundou uma agência de publicidade. Paralelamente, criou o jornal Noticiário da Moda, publicação que se consolidou com o tempo e atraiu bons anunciantes, chegando a chamar a atenção da Editora Abril, que adquiriu o periódico.
Retornou com ímpeto ao universo da publicidade e se tornou um dos empresários mais relevantes do setor no Brasil. Sua agência realizou campanhas memoráveis para marcas de grande alcance nacional, o que lhe conferiu prestígio e recursos financeiros consideráveis.
Paralelamente, começou a trabalhar como agente de artistas famosos, organizando shows em feiras, rodeios e exposições agropecuárias por todo o país e até no exterior. Foi nessa fase que começou a gestar o personagem que se tornaria sua marca registrada: o caubói Beto Carrero, um vaqueiro corajoso, defensor dos mais fracos e amante dos animais.
Com a situação financeira já estabilizada e uma vasta rede de contatos no meio artístico, decidiu finalmente materializar o sonho de infância. Montou com recursos próprios um circo itinerante no qual apresentava as aventuras do personagem Beto Carrero, o autêntico caubói brasileiro. Montado no belo e inteligente cavalo branco Faísca, percorreu o sul do país encantando plateias de todas as idades com suas apresentações circenses.
O personagem rapidamente conquistou enorme popularidade e transbordou o picadeiro. Ganhou quadrinhos, aparições na televisão e no cinema, ampliando consideravelmente seu alcance e visibilidade.
Lançou a série de histórias em quadrinhos As Aventuras de Beto Carrero, publicada pela editora Cluq, com roteiro de Gedeone Malagola e ilustrações de Eugenio Colonnese. As histórias apresentavam o herói enfrentando vilões utilizando seu chicote, sem recorrer a armas de fogo, numa ambientação inspirada no período das bandeiras e na cultura sertaneja.
No mesmo ano, estreou no cinema ao lado de Renato Aragão e Xuxa no filme Os Trapalhões no Reino da Fantasia. A participação demonstrou que o talento do empresário ia muito além do mundo dos negócios e confirmou o carisma que exercia sobre o público.
Atuou no filme O Mistério de Robin Hood, dando continuidade à sua incursão pelo cinema. Além disso, seu estilo country e a estética de caubói que cultivava inspiraram o diretor Jayme Monjardim na criação da caravana da novela A História de Ana Raio e Zé Trovão, exibida pela Rede Manchete. Participou da produção e consolidou sua presença na televisão brasileira.
Inaugurou o Beto Carrero World, no município de Penha, no litoral norte de Santa Catarina. A região foi escolhida pelo potencial turístico ainda pouco explorado. No começo, o empreendimento contava apenas com alguns brinquedos infantis, duas lonas de circo e as apresentações do próprio caubói. A proposta parecia ousada para muitos: um parque temático de grande porte, longe dos grandes centros urbanos, no litoral catarinense.
Investiu recursos próprios e foi, desde o primeiro dia, o corpo e a alma do projeto. Personificava diariamente o personagem em apresentações ao vivo, empinando seu cavalo branco e acenando com o chapéu para a multidão que se aglomerava para vê-lo ao final da tarde. Distribuía autógrafos, posava para fotos com crianças e era constantemente assediado pelo público que o admirava.
O parque cresceu de forma extraordinária ao longo dos anos. Incorporou montanhas-russas modernas, zoológico, shows ao vivo e diversas áreas temáticas. Tornou-se o maior parque temático da América Latina em extensão e número de atrações, superando a marca de dez milhões de visitantes acumulados e gerando milhares de empregos diretos e indiretos na região.
Também participou de programas televisivos que ajudaram a divulgar o empreendimento, como o Dedé e o Comando Maluco, do SBT, que era gravado inteiramente dentro do parque, e manteve um quadro fixo no Domingo Legal.
Colocou a pequena cidade de Penha no mapa turístico nacional, impulsionando de maneira decisiva o setor hoteleiro, gastronômico, comercial e de transportes de toda a região.
Após enfrentar dificuldades financeiras e problemas contábeis que o levaram inclusive a responder processos junto à Receita Federal, decidiu profissionalizar a gestão do parque. A administração passou a ser conduzida por profissionais capacitados pela Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. A partir desse momento, pôde se concentrar naquilo que fazia de melhor: ser Beto Carrero e promover o parque por meio de sua presença carismática e inesquecível.
As decisões administrativas passaram a ser tomadas de forma colegiada, em almoços diários com os executivos, realizados no casarão da família, situado no alto de uma colina dentro do parque, de onde era possível avistar todas as atrações.
Criou o Instituto Beto Carrero, uma organização filantrópica dedicada a desenvolver projetos de responsabilidade social voltados à educação, cultura, esporte, saúde, meio ambiente e geração de trabalho e renda para crianças e adolescentes carentes da comunidade. O instituto conta com creche, consultórios odontológico e ginecológico, salas de aula para cursos de artes e idiomas e um Circo Escola. Essa iniciativa representou a concretização de mais um dos seus sonhos: contribuir para um mundo melhor para as crianças.
Participou do filme Xuxa Gêmeas, sua última aparição no cinema. Também nesse ano, a JB World Entretenimento, seu estúdio de ilustração e animação, lançou a revista em quadrinhos As Aventuras de Betinho Carrero, protagonizada por um menino fã do herói que se veste como ele.
Faleceu aos 70 anos no Hospital Sírio-Libanês, na cidade de São Paulo. Havia sido internado dias antes por problemas cardíacos e foi submetido a uma cirurgia para corrigir uma endocardite infecciosa. Durante o procedimento, que se estendeu por várias horas, sofreu um choque cardiogênico que lhe tirou a vida.
Seu corpo foi sepultado no cemitério de Balneário de Penha, em Santa Catarina, a terra que escolheu para construir seu mundo mágico e que se tornou também sua última morada.
Deixou três filhos: Alexandre, Kelly e Juliana, frutos de diferentes relacionamentos.
Após a sua morte, a gestão do parque passou para seu filho Alexandre Von Janke Murad, que assumiu a presidência e conduziu uma nova fase de modernização e profissionalização do empreendimento. Ao longo dos anos seguintes, o Beto Carrero World firmou parcerias com estúdios internacionais como a DreamWorks e a Universal, incorporando atrações baseadas em franquias como Shrek, Madagascar e Hot Wheels.
Em junho de 2008, o jornalista Alex Solnik publicou a biografia Domador de Sonhos – A Vida Mágica de Beto Carrero, obra que documentou a trajetória extraordinária do menino pobre que se transformou num dos maiores empreendedores do entretenimento no Brasil.
O parque conta hoje com um Memorial dedicado a preservar a memória e a história do fundador, espaço que emociona visitantes ao retratar a jornada improvável daquele garoto do interior paulista que nunca deixou de sonhar.
O cuidado com a natureza e com os animais, bandeiras que sempre defendeu em vida, seguem como prioridade do empreendimento. O zoológico do parque participa ativamente de programas de preservação de espécies, e o complexo recicla anualmente mais de mil e quatrocentas toneladas de resíduos.
Beto Carrero é lembrado como um homem que provou, com sua própria história, que sonhos aparentemente impossíveis podem se tornar realidade quando sustentados pela determinação, pela criatividade e por uma inabalável capacidade de encantar as pessoas.
Autor: Editorial. Data: 09/03/2026.